A música brasileira, em praticamente todos os seus gêneros mais conhecidos internacionalmente, tem raízes diretas nas tradições musicais trazidas por povos africanos escravizados no Brasil. Não se trata apenas de “influência”: boa parte do que hoje é celebrado como música brasileira nasceu dentro de comunidades negras, muitas vezes como forma de resistência a um sistema que buscava apagar sua cultura.
Há, porém, um padrão que atravessa essa história e que costuma ficar de fora das versões resumidas: a música negra vira patrimônio nacional muito antes de seus criadores receberem reconhecimento — e, por décadas, as mesmas expressões que hoje são motivo de orgulho foram vigiadas, reprimidas ou tratadas como coisa de marginal. Este texto percorre essa trajetória, do batuque ao rap, com esse fio condutor.
Origens: batuques, tambores e a formação de novos ritmos
Dentro das senzalas e, posteriormente, nas comunidades negras livres e nos terreiros de candomblé, tambores como o atabaque e instrumentos de percussão de origem africana serviam tanto a rituais religiosos quanto a formas seculares de canto e dança. Esses batuques, somados a elementos musicais indígenas e europeus presentes no Brasil colonial, deram origem, ao longo dos séculos XIX e XX, a gêneros como o samba, o maracatu, o coco, o jongo e o partido-alto.

Parte dessas matrizes hoje tem reconhecimento oficial. O IPHAN registrou o samba de roda do Recôncavo Baiano como Patrimônio Cultural do Brasil em 2004, e a UNESCO o proclamou Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade em 2005. O jongo do Sudeste foi registrado em 2005; as matrizes do samba no Rio de Janeiro — partido-alto, samba de terreiro e samba-enredo — em 2007; e o choro em 2024.

O samba nasce num quintal da Pequena África
O samba, como já discutido em detalhe no post sobre Carnaval e suas raízes africanas, se formou no fim do século XIX e início do XX nas comunidades negras do Rio de Janeiro, muitas delas formadas por famílias baianas que se estabeleceram na região da Praça Onze e da Cidade Nova — área que ficou conhecida como “Pequena África”.
O endereço mais lembrado dessa história é a casa de Tia Ciata (Hilária Batista de Almeida, 1854–1924), baiana de Santo Amaro, no Recôncavo, quituteira e mãe-pequena no terreiro de João Alabá. Entre 1899 e 1924, sua casa na Rua Visconde de Itaúna reunia músicos, rodas de samba e festas religiosas — numa época em que terreiros e batuques eram alvo frequente da polícia, uma perseguição às religiões de matriz africana que, em outras formas, continua documentada até hoje.
Foi desse ambiente que saiu “Pelo Telefone”, registrado na Biblioteca Nacional em novembro de 1916 em nome de Donga e Mauro de Almeida e gravado pela Casa Edison em janeiro de 1917 — a versão cantada por Baiano foi o sucesso do Carnaval daquele ano. A música é considerada o primeiro samba gravado, embora o marco seja contestado por historiadores (gravações anteriores já usavam o rótulo “samba”). E já nasceu com uma disputa que resume o problema deste texto: outros frequentadores da casa de Tia Ciata afirmavam que a melodia tinha surgido de improviso coletivo, e não de um único autor. A criação era comunitária; o registro, individual.
Choro e samba: gênios reconhecidos tarde
Pixinguinha (1897–1973) é um dos maiores nomes do choro — gênero que já existia no Rio desde cerca de 1870 — como compositor, flautista, saxofonista e pioneiro do arranjo na música popular brasileira. Em 1922, levou os Oito Batutas para uma temporada de meses em Paris. Seu “Carinhoso” foi gravado pela primeira vez em 1928, como peça instrumental, e só virou o clássico cantado que todo brasileiro conhece em 1937, com letra de João de Barro e a voz de Orlando Silva. A Lei nº 10.000/2000 fez do 23 de abril, data tradicionalmente atribuída ao seu nascimento, o Dia Nacional do Choro.
Cartola (1908–1980) ajudou a fundar a Estação Primeira de Mangueira em 1928, mas só gravou o primeiro LP solo em 1974, aos 65 anos. “As Rosas Não Falam”, um dos sambas mais regravados do país, saiu no disco seguinte, de 1976.
Clementina de Jesus estreou profissionalmente aos 63 anos, em 1964, depois de ser ouvida cantando pelo produtor Hermínio Bello de Carvalho; no ano seguinte, participou do espetáculo Rosa de Ouro. Tornou-se uma das principais guardiãs da tradição oral afro-brasileira na música — de cantos de trabalho a jongos — e é difícil imaginar quanto desse repertório teria se perdido sem essa descoberta tardia.
Dona Ivone Lara rompeu outra barreira: em 1965 tornou-se a primeira mulher a integrar a ala de compositores de uma escola de samba, o Império Serrano, e no mesmo ano assinou, com Silas de Oliveira e Bacalhau, o samba-enredo “Os Cinco Bailes da História do Rio”.
A música negra e a MPB
A partir das décadas de 1960 e 1970, artistas negros tiveram papel central nas transformações da música popular brasileira. Jorge Ben (hoje Jorge Ben Jor) estreou em disco em 1963 com Samba Esquema Novo, que trazia “Mas Que Nada” e uma batida de violão que misturava samba, soul e ritmos afro-brasileiros. Gilberto Gil, ao lado de Caetano Veloso e de outros nomes do tropicalismo, incorporou elementos do samba, do afoxé e de ritmos afro-brasileiros a uma linguagem musical experimental; décadas depois, foi ministro da Cultura (2003–2008) e, em 2021, eleito para a Academia Brasileira de Letras. Milton Nascimento, com o Clube da Esquina (1972, com Lô Borges), levou a tradição mineira — congado incluído — para o centro da MPB.

Elza Soares atravessou o samba desde os anos 1960 até discos experimentais lançados depois dos 80 anos, e foi escolhida em 1999 pela Rádio BBC de Londres como a cantora brasileira do milênio. Em 2002, regravou “A Carne” (de Seu Jorge, Marcelo Yuka e Ulisses Cappelletti, lançada em 1998 pelo Farofa Carioca), cujo verso “a carne mais barata do mercado é a carne negra” virou um dos resumos mais citados do racismo brasileiro.
Soul, blocos afro e funk: a música negra vigiada
Nos anos 1970, os bailes de soul no subúrbio carioca — o movimento que ficou conhecido como Black Rio, ligado a nomes como Tim Maia, Toni Tornado, Cassiano, Gerson King Combo e à Banda Black Rio, que lançou o LP Maria Fumaça em 1977 — reuniam milhares de jovens negros em torno da música e do orgulho racial. A ditadura militar viu nisso uma ameaça: os bailes foram monitorados por órgãos de repressão, como documenta o livro Dançando na mira da ditadura, de Lucas Pedretti, publicado pelo Arquivo Nacional em 2022.
Na mesma década, em Salvador, o Ilê Aiyê foi fundado em 1974 no Curuzu, bairro da Liberdade, como o primeiro bloco afro — formado só por pessoas negras, num Carnaval em que elas eram barradas em muitos blocos. No desfile de estreia, em 1975, cantou “Que Bloco É Esse”, de Paulinho Camafeu. Em 1979 surgiu o Olodum, no Pelourinho, onde o mestre Neguinho do Samba desenvolveu a base do samba-reggae; “Faraó (Divindade do Egito)”, de Luciano Gomes, estourou em 1987.
O funk carioca herdou os bailes black e, nos anos 1980, incorporou o Miami bass. Por décadas foi associado à criminalidade e alvo de leis que restringiam os bailes; só em setembro de 2009 a Lei estadual nº 5.543 definiu o funk, no Rio de Janeiro, como “movimento cultural e musical de caráter popular”.
Presença negra na música contemporânea
Nas últimas décadas, o rap e o hip-hop brasileiros consolidaram-se como um dos principais espaços de expressão política da população negra na música. Racionais MC’s, grupo paulistano formado em 1988 por Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay, é uma referência central desse movimento, com letras que descrevem diretamente o racismo, a violência policial e a desigualdade nas periferias. O reconhecimento institucional, também aqui, veio depois: o disco Sobrevivendo no Inferno (1997) passou a ser leitura obrigatória do vestibular da Unicamp a partir de 2020.
Mais recentemente, artistas como Emicida e Criolo deram continuidade a essa tradição, unindo rap, samba e MPB em discursos sobre identidade racial e desigualdade social. O álbum AmarElo (2019), de Emicida, ganhou um documentário na Netflix em 2020 que refaz justamente essa genealogia da música negra brasileira.

Músicas afro-brasileiras famosas para conhecer
Uma lista curta, em ordem cronológica, para ouvir essa história:
- “Pelo Telefone” — Donga e Mauro de Almeida (registrada em 1916; gravada em 1917).
- “Carinhoso” — Pixinguinha (gravação instrumental de 1928; letra de João de Barro, na voz de Orlando Silva, em 1937).
- “Mas Que Nada” — Jorge Ben (1963).
- “Os Cinco Bailes da História do Rio” — Dona Ivone Lara, Silas de Oliveira e Bacalhau (1965).
- “Que Bloco É Esse” — Paulinho Camafeu, cantada pelo Ilê Aiyê (1975).
- “As Rosas Não Falam” — Cartola (1976).
- “Faraó (Divindade do Egito)” — Luciano Gomes, com o Olodum (1987).
- “A Carne” — Seu Jorge, Marcelo Yuka e Ulisses Cappelletti, na voz de Elza Soares (2002).
- “Negro Drama” — Racionais MC’s (2002).
- O álbum AmarElo — Emicida (2019).
Conclusão
A presença negra na música brasileira não é um capítulo isolado: é parte estruturante da própria formação da música popular do país. Do quintal de Tia Ciata ao samba, do Black Rio ao rap, artistas negros moldaram os ritmos, os temas e a linguagem da música brasileira — e, com frequência, receberam reconhecimento só depois de a música já ter virado “nacional”: o disco aos 65 anos, a estreia aos 63, a lei que reconhece como cultura o que antes era tratado como caso de polícia. Reconhecer essa história é também reconhecer que a música brasileira, tal como a conhecemos, simplesmente não existiria sem ela.
Referências e para saber mais
- José Geraldo Vinci de Moraes, “O centenário de ‘Pelo telefone’”, Jornal da USP, 27 ago. 2016.
- Organização Cultural Remanescentes de Tia Ciata — biografia de Hilária Batista de Almeida (tiaciata.org.br).
- Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira — verbetes “Pixinguinha”, “Cartola”, “Clementina de Jesus”, “Dona Ivone Lara” e “Jorge Ben Jor”.
- Instituto Moreira Salles, “Pixinguinha – Cronologia”, 29 mar. 2019; e acervo do site oficial pixinguinha.com.br.
- Lei nº 10.000, de 4 de setembro de 2000 (Dia Nacional do Choro) — Planalto.
- IPHAN — Bens Culturais Registrados: Samba de Roda do Recôncavo Baiano; Matrizes do Samba no Rio de Janeiro; Jongo no Sudeste.
- Agência Brasil, “Choro é declarado Patrimônio Cultural do Brasil”, fev. 2024.
- Agência Brasil, “Morre, aos 91 anos, a cantora Elza Soares”, 20 jan. 2022.
- Lucas Pedretti, Dançando na mira da ditadura: bailes soul e violência contra a população negra nos anos 1970, Arquivo Nacional, 2022.
- CNN Brasil, “Bloco afro Ilê Aiyê completa 50 anos”, nov. 2024; Enciclopédia Itaú Cultural, verbete “Olodum”.
- Lei estadual do Rio de Janeiro nº 5.543, de 22 de setembro de 2009 (funk como movimento cultural).
- Comvest/Unicamp, lista de leituras obrigatórias do Vestibular 2020.
- Agência Brasil, “Gilberto Gil é eleito para a Academia Brasileira de Letras”, nov. 2021.
- Nei Lopes — obras sobre a presença bantu e iorubá na música e na cultura brasileira.
