Brasília foi projetada antes de ser habitada. Isso normalmente entra na história da cidade como elogio — o urbanismo modernista de Lúcio Costa, a ousadia de erguer uma capital do nada em quatro anos. Menos contada é a outra metade dessa história: o Plano Piloto foi desenhado para abrigar um número limitado de moradores, e quem construiu a cidade — os candangos, majoritariamente migrantes nordestinos e maioria negra — foi sistematicamente removido para fora dele, para acampamentos que se tornariam as chamadas cidades-satélite. Não foi um efeito colateral do crescimento urbano espontâneo, como em outras metrópoles brasileiras. Foi política de Estado, desde a fundação, decidir onde cada grupo poderia morar em relação a onde o trabalho e o poder se concentram.

Sessenta e seis anos depois, essa divisão original ainda organiza a vida de quem mora no Distrito Federal — e organiza, sobretudo, quanto tempo da vida de cada pessoa é consumido só para chegar ao trabalho.

Uma cidade dividida por décadas, não por acaso

Os números da composição racial por Região Administrativa (RA) do DF são o retrato mais direto dessa divisão. Um estudo da Codeplan — a Companhia de Planejamento do Distrito Federal — de 2014, com base no Censo Demográfico do IBGE de 2010, mostrou que a população negra (preta, parda e indígena, conforme a metodologia do próprio estudo) era 56,2% do total do DF, mas distribuída de forma muito desigual pelo território: 77,6% em SCIA/Estrutural, 71,8% na Fercal, 69,5% em São Sebastião, 68,3% em Itapoã, 67,8% no Paranoá, 63,5% em Ceilândia — contra apenas 20,1% no Lago Sul, 25,7% no Sudoeste/Octogonal e 28,4% no Lago Norte. O próprio Plano Piloto tinha 30,8% de população negra, quase a metade da média do Distrito Federal.

Dados mais recentes, levantados pelo “Mapa das Desigualdades” do Inesc a partir da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD) e do Censo 2022 — usando outro corte metodológico, que não deve ser somado célula a célula ao estudo de 2010 — confirmam que a tendência não mudou: Estrutural (75%), São Sebastião (74%) e Paranoá (71%) continuam entre as RAs com maior proporção de população negra, enquanto o Plano Piloto (37%) e o Lago Sul (33%) permanecem no outro extremo. De 33 Regiões Administrativas do DF, apenas nove têm maioria branca.

A renda segue o mesmo desenho. Segundo reportagem do Poder360 que cita a PDAD 2021 da Codeplan, a renda domiciliar per capita do Lago Sul era de R$ 10.979 — quinze vezes a da Estrutural, de R$ 695. O Distrito Federal chega a ter o quarto maior índice de Gini do país, segundo a mesma matéria, com base em PNAD Contínua e dados do PNUD: é rico em média, mas essa riqueza não está distribuída — está concentrada geograficamente em quem já morava perto do centro de poder desde a fundação da cidade, a mesma lógica de exclusão estrutural que a historiografia associa à desigualdade racial brasileira em geral, só que aqui desenhada em mapa.

O que a distância custa em horas

Segregação racial e espacial não é só uma estatística sobre onde as pessoas moram. Ela se traduz, todos os dias, em quanto tempo cada pessoa perde apenas para chegar ao lugar onde trabalha — e esse custo também não é distribuído igualmente entre raças.

O Censo Demográfico 2022 trouxe, pela primeira vez nessa profundidade, um retrato nacional do tempo de deslocamento casa-trabalho cruzado com cor ou raça. Os microdados agregados por Grande Região (o menor recorte geográfico disponível nessa publicação preliminar, já que o Distrito Federal não se subdivide em municípios para fins de tabulação do IBGE) mostram, para a Região Centro-Oeste — que inclui o DF —, que 15,2% das pessoas pretas ocupadas gastam mais de uma hora no trajeto até o trabalho, contra 9,6% das pessoas brancas na mesma região: uma diferença de quase 60% na chance de ter o dia consumido por um deslocamento longo, dependendo só da cor da pele. O próprio documento do IBGE registra que, olhando o Brasil como um todo, quanto maior a faixa de tempo de deslocamento, maior a participação da população preta dentro dela — um padrão que se repete em quase todas as regiões do país, não uma peculiaridade isolada.

Em Brasília, esse número populacional ganha rosto em reportagens como a publicada pelo Correio Braziliense em agosto de 2025 (“Cidade planejada: os desafios da mobilidade na capital”, de Luana Patriolino e Renata Giraldi). Nela, a professora Pollyana Denar Garcia Pereira, moradora de Planaltina — a cerca de 40 km da Asa Norte, onde trabalha —, descreve uma rotina de aproximadamente três horas por dia só de deslocamento: sai do trabalho às 16h, chega em casa às 19h. Breno Gustavo de Aguiar, motorista de aplicativo morador de Luziânia, no Entorno do DF, roda de 10 a 12 horas diárias e já perdeu uma entrevista de emprego por engarrafamento. A reportagem também registra uma limitação estrutural pouco discutida: o metrô do DF, a única linha de trilho da cidade, liga ao centro apenas cinco das 33 Regiões Administrativas — Guará, Águas Claras, Taguatinga, Ceilândia e Samambaia — deixando de fora RAs como Planaltina, Paranoá, Itapoã, São Sebastião e Estrutural, justamente algumas das que concentram maior proporção de população negra e menor renda.

Não é um fenômeno exclusivo do DF. Um estudo publicado nos Cadernos Metrópole em 2024, usando dados censitários da Região Metropolitana de São Paulo, calculou um índice de dissimilaridade de 0,50 entre o tempo de deslocamento de pessoas brancas até 30 minutos e pessoas negras acima de uma hora — e mostrou que, entre quem ganha até dois salários mínimos, 32% levam mais de uma hora para chegar ao trabalho, contra 22% entre quem ganha mais de dez salários mínimos. A diferença de Brasília para São Paulo ou Rio de Janeiro não é a existência da desigualdade — é a intensidade com que o desenho urbano planejado da capital a tornou literal: aqui, a distância entre quem trabalha no centro de poder e quem vive dele foi decidida em prancheta, nos anos 1950, antes de qualquer avenida ser asfaltada. Não é acaso que o geógrafo brasileiro que melhor descreveu essa lógica de uso desigual do espaço urbano foi um homem negro nascido no interior da Bahia: Milton Santos chamava de “espaço banal” o território tal como é de fato usado por todos — e é esse uso desigual, não o desenho no papel, que a distância em Brasília revela todos os dias.

Uma geografia que também é enredo

Essa geografia — o ônibus lotado saindo ainda de madrugada, a linha de metrô que não chega à sua RA, a hora que falta no fim do dia porque foi gasta na estrada — não é só matéria de censo. É o cenário físico literal de “Acorda, Menina! É Hora de Agir”, romance de Max Lobo que acompanha Cris, mulher negra e trans moradora da periferia de Brasília, atravessando a cidade de porta em porta num único domingo sufocante, tentando salvar o emprego que a distância todos os dias ameaça. A ficção não inventa essa distância: ela a atravessa, na pele de uma personagem, para que o leitor sinta o que a estatística só descreve.

Enquanto a Estrutural continua com renda domiciliar per capita quinze vezes menor que a do Lago Sul e o metrô continua não chegando a boa parte das RAs de maioria negra, o tempo perdido no deslocamento seguirá sendo, para milhares de candangos e seus descendentes, uma forma silenciosa e cotidiana de desigualdade racial — a mesma que moldou a cidade desde antes de ela existir.

Referências e para saber mais

  • IBGE, Censo Demográfico 2022: Deslocamentos para trabalho e para estudo — Resultados preliminares da amostra, divulgado em 9 de outubro de 2025 (Tabela 7, dados por cor ou raça e tempo de deslocamento, Região Centro-Oeste).
  • Codeplan (Companhia de Planejamento do Distrito Federal), A população negra no Distrito Federal — Analisando as Regiões Administrativas, dezembro de 2014, com base no Censo Demográfico IBGE 2010.
  • Isadora Albernaz, Poder360, 21/04/2023, “Aos 63 anos, Brasília é marcada por abismo entre ricos e pobres” — com dados da PDAD 2021/Codeplan, PNAD Contínua e PNUD.
  • Valmir Araújo, Brasil de Fato, 15/05/2023, “Distrito Federal tem abismo social entre pessoas negras e não-negras” — com dados do “Mapa das Desigualdades” (Inesc, 2023), baseado em PDAD e Censo 2022.
  • Luana Patriolino e Renata Giraldi, Correio Braziliense, 12/08/2025, “Cidade planejada: os desafios da mobilidade na capital”.
  • Ricardo Barbosa da Silva, “Segregação espaço-temporal: tempo de deslocamento que une e separa classes e raças”, Cadernos Metrópole, 2024 (dados da Região Metropolitana de São Paulo, Censo 2010).

Os dois levantamentos da Codeplan sobre composição racial por Região Administrativa citados neste texto (2014, com base no Censo 2010, e o “Mapa das Desigualdades” de 2023, com base em PDAD e Censo 2022) usam anos e metodologias diferentes; a tendência de concentração da população negra na periferia se confirma nos dois, mas os percentuais não são diretamente comparáveis entre si.