Poucos aspectos do corpo negro foram tão diretamente alvo de padrões estéticos eurocêntricos quanto o cabelo. Ao longo do século XX, o alisamento químico foi, para muitas mulheres negras brasileiras, menos uma escolha estética do que uma exigência social — uma condição para ser aceita em ambientes de trabalho, escolas e espaços formais. Entender essa história ajuda a entender por que o movimento de transição capilar, mais recente, é também um movimento político.
Alisamento como imposição, não escolha
A prática de alisar quimicamente o cabelo crespo se consolidou no Brasil como parte do que pesquisas sobre o tema chamam de ideologia do embranquecimento: a ideia de que características associadas à negritude deveriam ser corrigidas ou disfarçadas para alcançar uma “boa aparência”, termo historicamente carregado de racismo. Casos documentados de coerção explícita continuaram acontecendo até tempos recentes — em 2011, por exemplo, uma estagiária em São Paulo denunciou publicamente ter sido pressionada a alisar o cabelo como condição para permanecer no ambiente de trabalho.
Legislação recente contra a discriminação capilar
Nos últimos anos, o Brasil passou a ter leis específicas — ainda que municipais e estaduais, não federais — contra a discriminação por causa de cabelo crespo. No município do Rio de Janeiro, a Lei nº 8.315/2024 prevê multa por atos discriminatórios em razão de raça ou cor, aplicável a esses casos; no estado do Rio de Janeiro, a chamada Lei Guilherme Lima trata especificamente de discriminação escolar, citando casos envolvendo cabelo crespo. Minas Gerais tem uma política estadual de valorização de cabelos crespos de crianças, que inclui a proibição de alisamento químico em salões de atendimento público a menores. Casos julgados por tribunais do trabalho já reconheceram discriminação capilar como enquadrável na Lei nº 7.716/1989, a lei de crimes de racismo.
A Marcha do Orgulho Crespo e a transição capilar
O movimento de “transição capilar” — o processo de abandonar o alisamento químico e retornar à textura natural do cabelo — ganhou força no Brasil ao longo da década de 2010, impulsionado por blogueiras e youtubers que compartilhavam suas próprias transições. Um marco histórico importante é a primeira Marcha do Orgulho Crespo, realizada em 26 de julho de 2015, na Avenida Paulista, em São Paulo, organizada por blogueiras como Neomísia Silvestre e Nanda Cury. Esse marco é hoje celebrado oficialmente: o estado de São Paulo instituiu, pela Lei nº 16.682/2018, o “Dia Estadual do Orgulho Crespo” nessa mesma data — não existe, até o momento, uma data nacional equivalente, mas outros estados também criaram leis próprias, como o Mato Grosso do Sul, que celebra a data em 7 de novembro.
Um mercado em expansão
Ainda que faltem dados oficiais robustos (o IBGE não segmenta o consumo por tipo de cabelo), o site especializado do setor químico-cosmético Safic-Alcan estima esse nicho em mais de R$ 4 bilhões em vendas anuais no varejo, com crescimento acima de 11% ao ano na última década — número que deve ser lido como estimativa comercial do próprio setor, não medição oficial. Ele é, ainda assim, consistente com o crescimento do mercado brasileiro de cuidados capilares como um todo, que faturou R$ 28,2 bilhões em 2023, segundo a associação do setor (ABIHPEC). Esse crescimento acompanha, e em parte impulsiona, a maior visibilidade de cabelos naturais em publicidade, televisão e ambientes de trabalho — ainda que a discriminação capilar continue sendo motivo de disputa judicial e debate público.
Essa reafirmação estética também tem espaço crescente no mercado: como discutido no post sobre empreendedorismo negro no Brasil, o segmento de produtos para cabelos crespos e cacheados é hoje um dos nichos de maior crescimento dentro do mercado brasileiro de beleza.
Conclusão
O cabelo crespo carrega, ao mesmo tempo, uma história de imposição estética violenta e um movimento crescente de reafirmação identitária. Da coerção documentada em ambientes de trabalho às leis municipais e estaduais recentes, passando pela Marcha do Orgulho Crespo em 2015, o que se vê é uma disputa ainda em curso — na lei, no mercado e no cotidiano — sobre o direito de existir com o próprio cabelo, sem que isso seja tratado como problema a ser corrigido.
Referências e para saber mais
- Criola (criola.org.br) — artigo “Alisando o Nosso Cabelo”, sobre a ideologia do embranquecimento e a discriminação capilar.
- Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN) — artigo “Cabelos crespos, tranças e black power” (Revista ABPN).
- Câmara Municipal do Rio de Janeiro — Lei nº 8.315/2024.
- Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) — Lei nº 11.218/2026 (“Lei Guilherme Lima”), sobre discriminação escolar.
- Assembleia Legislativa de São Paulo — Lei nº 16.682/2018, Dia Estadual do Orgulho Crespo.
- Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC) — dados do setor de hair care no Brasil (2023).
- Safic-Alcan — artigo setorial sobre o mercado de cabelos cacheados no Brasil (estimativa comercial).
