O Carnaval brasileiro é conhecido no mundo todo pelos desfiles das escolas de samba, pelos blocos de rua e pela explosão de cores dos trios elétricos. Essa imagem, porém, esconde uma origem bem mais específica: boa parte do que hoje chamamos de “Carnaval brasileiro” nasceu nas práticas culturais de comunidades negras, em bairros populares do Rio de Janeiro e em terreiros e ruas de Salvador, num contexto de forte repressão policial a essas mesmas práticas. Entender essa origem ajuda a ver o Carnaval não como uma festa neutra que “incorporou” influências africanas, mas como uma disputa histórica por espaço, respeito e visibilidade.

Batuques, terreiros e a formação do samba
O samba não surgiu como gênero fechado; ele é resultado de um processo longo de encontro entre diferentes tradições musicais de origem africana trazidas por populações escravizadas de diversas regiões do continente, com destaque para elementos de origem bantu e da cultura iorubá. Esse processo aconteceu de forma intensa no Rio de Janeiro a partir do final do século XIX, quando famílias negras vindas da Bahia — muitas delas ligadas ao candomblé — se estabeleceram em bairros centrais como a região da Praça Onze, formando redes de solidariedade em torno de casas de mulheres conhecidas como “tias baianas”.
Nessas casas, os batuques e as rodas de música que acompanhavam rituais religiosos de matriz africana também davam origem a formas profanas de canto e percussão. O candomblé, nesse sentido, não é apenas um pano de fundo religioso: ele forneceu boa parte do vocabulário rítmico, dos instrumentos de percussão e até da lógica de organização coletiva (naipes, hierarquias de mestres, respeito aos mais velhos) que depois estruturaram as escolas de samba. Instrumentos como o atabaque, o agogô, o tamborim e o cuíca têm essa raiz africana direta, seja na forma do instrumento, seja na técnica de execução.

É importante notar que essas práticas eram criminalizadas. No início do século XX, batuques, capoeira e outras manifestações associadas à população negra podiam ser reprimidos pela polícia com base em códigos penais que tratavam essas expressões como “vadiagem” ou desordem pública. Fazer samba em roda, portanto, já era em si um ato de resistência: manter viva uma prática cultural que o Estado tentava apagar.
Da “Deixa Falar” às escolas de samba
O formato de “escola de samba” como conhecemos — agremiação organizada, com diretoria, hierarquia de alas e desfile competitivo — é geralmente atribuído à Deixa Falar, fundada em 1928 no Estagio, região que reunia grande parte da comunidade negra carioca ligada ao samba. O nome da agremiação já era uma provocação: um convite para que a sociedade “deixasse falar” essa cultura que era marginalizada.
A partir da Deixa Falar, outras agremiações foram surgindo ao longo das décadas de 1920 e 1930 — muitas delas ligadas aos mesmos núcleos familiares e às mesmas lideranças religiosas dos terreiros. A palavra “escola” reflete a intenção pedagógica: ensinar e preservar um jeito de tocar e cantar samba, com identidade própria, em contraposição à absorção do gênero pelo mercado fonográfico, que naquele momento já começava a gravar sambistas negros mas frequentemente sem dar a eles o devido reconhecimento ou os direitos autorais correspondentes.
O processo de institucionalização do desfile de escolas de samba, ao longo do século XX, é também um processo ambíguo: por um lado, deu visibilidade e financiamento a uma cultura antes reprimida; por outro, envolveu negociações com o Estado (inclusive durante o Estado Novo, quando o samba foi promovido como símbolo de identidade nacional) que muitas vezes deslocaram o controle da festa das comunidades negras que a criaram para outros agentes — patrocinadores, poder público, indústria do entretenimento.
Os blocos afro da Bahia e a reafricanização do Carnaval
Enquanto o Rio consolidava o modelo de escola de samba, Salvador desenvolvia sua própria tradição carnavalesca, marcada historicamente pelos afoxés — cortejos ligados ao candomblé, com forte presença de instrumentos como o atabaque — e, a partir da década de 1970, pelos chamados blocos afro.
O Ilê Aiyê, fundado em 1974 no bairro da Liberdade, é o marco mais citado desse movimento. Ele nasceu explicitamente como um bloco carnavalesco para pessoas negras, em um momento em que a participação negra em muitos blocos e clubes de Salvador era limitada ou subordinada. O Ilê Aiyê tornou a estética afro — penteados, tecidos, temas de enredo ligados à história da diáspora africana e a países do continente — o centro da sua proposta, num movimento que ficou conhecido como reafricanização do Carnaval baiano. Depois dele, outros blocos afro importantes surgiram em Salvador, ampliando essa tradição de Carnaval como espaço de afirmação identitária negra, e não apenas de entretenimento.
Esse movimento baiano dialoga com o que acontecia em outras cidades do país no mesmo período: a redemocratização e o fortalecimento do movimento negro brasileiro nas décadas de 1970 e 1980 encontraram no Carnaval um palco natural, já que era um dos poucos espaços em que grandes agrupamentos de pessoas negras já tinham tradição organizativa consolidada.
Enredo, crítica social e memória negra
Nas escolas de samba do Rio, o enredo — tema desenvolvido ao longo do desfile, com samba-enredo, fantasias e alegorias — tornou-se historicamente um veículo importante para contar histórias da população negra, revisitar figuras como Zumbi dos Palmares e outras lideranças de resistência, e também para fazer crítica social direta. Esse uso do desfile como narrativa política não é acessório: para muitas comunidades negras que historicamente tiveram pouco espaço nos livros didáticos e na grande imprensa, o desfile de Carnaval funcionou (e ainda funciona) como forma de contar sua própria história, num período em que outros canais de expressão eram mais restritos.
O Carnaval como espaço de tensão, não só de celebração
Vale evitar uma leitura romantizada. O Carnaval negro sempre existiu em tensão com as autoridades e com setores da sociedade que buscavam controlar, “civilizar” ou embranquecer a festa. Ao mesmo tempo em que o samba se tornava símbolo nacional a partir dos anos 1930, sambistas negros continuavam enfrentando racismo dentro e fora dos desfiles, e muitas comunidades tiveram que negociar constantemente sua permanência nos espaços urbanos centrais — a própria remoção de moradias na região da Praça Onze e a expulsão de populações negras de áreas centrais do Rio ao longo do século XX afetaram diretamente os núcleos que sustentavam o samba.
Reconhecer essa tensão é parte de entender por que o Carnaval segue sendo, até hoje, um espaço de disputa: sobre quem financia os desfiles, quem ocupa os cargos de liderança nas escolas, quais enredos ganham destaque e como a estética afro-brasileira é tratada — como fonte de orgulho e autoria, ou como simples decoração exótica.
Leituras complementares
Para quem quiser se aprofundar com fontes mais completas do que este texto pode oferecer:
- IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) — possui dossiês e registros sobre o samba de roda e outras expressões culturais afro-brasileiras reconhecidas como patrimônio cultural do Brasil.
- Muniz Sodré, autor de obras sobre cultura negra e comunicação no Brasil, incluindo reflexões sobre samba e identidade afro-brasileira.
- Nei Lopes, pesquisador e sambista, com diversos livros sobre a história do samba, a presença bantu na cultura brasileira e o dicionário de temas afro-brasileiros.
- Acervos e publicações do Ilê Aiyê e de outros blocos afro de Salvador sobre a própria história do movimento de reafricanização do Carnaval baiano.
- Estudos acadêmicos sobre a história da Praça Onze e da formação das primeiras escolas de samba, disponíveis em programas de pós-graduação em história e ciências sociais de universidades como UFRJ e UFBA.
Este artigo é uma introdução ao tema; recomenda-se buscar essas fontes para aprofundamento histórico e acadêmico.
