O empreendedorismo é, para boa parte da população negra brasileira, tanto uma via de ascensão econômica quanto uma resposta a barreiras de acesso ao mercado formal de trabalho. Os dados mais recentes mostram um quadro duplo: pessoas negras já são maioria entre os pequenos empreendedores do país, mas continuam enfrentando desigualdades estruturais de acesso a crédito e de rentabilidade dos próprios negócios.

Pessoas negras já são maioria entre pequenos empreendedores

Segundo o Sebrae, com base em dados da PNAD Contínua do IBGE referentes ao quarto trimestre de 2025, pessoas pretas e pardas já representam 52,3% dos donos de pequenos negócios no Brasil — cerca de 15,8 milhões de empreendedores —, contra 46,4% de empreendedores brancos. Esse dado, por si só, poderia sugerir avanço; mas o mesmo levantamento mostra outra faceta importante: apenas 23,6% dos negócios liderados por pessoas negras têm CNPJ formal, contra 43,1% dos negócios liderados por brancos — uma disparidade que reflete menor acesso a formalização, crédito bancário e proteção jurídica.

A desigualdade no acesso a crédito

O acesso a crédito é um dos pontos mais críticos dessa desigualdade. Levantamento do Sebrae mostra que, durante a pandemia de covid-19, 51% dos empreendedores negros buscaram crédito (contra 49% dos brancos), mas 47% desses pedidos foram negados, quase 14 pontos percentuais acima da taxa de recusa entre empreendedores brancos (34%). Essa dificuldade de acesso a financiamento é apontada por especialistas como um dos principais fatores que travam o crescimento de negócios liderados por pessoas negras — não a falta de iniciativa ou de demanda por crédito, mas a barreira concreta de conseguir obtê-lo.

Disparidade de renda entre empreendedores

Mesmo entre quem já está à frente do próprio negócio, a renda também é desigual: dados do Sebrae apontam rendimento médio de empreendedores negros entre 32% e 46% inferior ao de empreendedores brancos, dependendo do corte analisado (a diferença é ainda maior quando cruzada com o recorte de gênero — mulheres negras empreendedoras têm a menor renda média entre todos os grupos). Essa desigualdade de renda dentro do próprio empreendedorismo mostra que ter um negócio próprio não elimina, por si só, as barreiras estruturais discutidas no post sobre a persistência do racismo estrutural no Brasil.

O mercado de beleza afro como nicho em crescimento

Um dos setores onde o empreendedorismo negro tem espaço de destaque é o mercado de beleza voltado à pele e aos cabelos crespos e cacheados — tema já discutido no post sobre cabelo crespo, resistência e transição capilar. Fontes do próprio setor cosmético estimam esse nicho em mais de R$ 4 bilhões em vendas anuais no varejo brasileiro, com crescimento acima de 11% ao ano na última década — vale destacar que esse número é uma estimativa de mercado do próprio setor, não uma medição oficial do IBGE, mas ele é consistente com o crescimento mais amplo do mercado brasileiro de cuidados capilares, que faturou R$ 28,2 bilhões em 2023 segundo a associação do setor (ABIHPEC).

Programas de fomento existentes

Diante dessas barreiras, surgiram nos últimos anos programas específicos de apoio ao empreendedorismo negro. Em São Paulo, o programa público Empreenda Afro oferece microcrédito de R$ 200 a R$ 21 mil, com juros reduzidos, especificamente para empreendedores negros, através da Agência de Desenvolvimento de São Paulo. No setor privado, o Grupo Carrefour Brasil mantém um edital próprio de apoio a iniciativas de fomento ao empreendedorismo negro. Iniciativas como essas buscam endereçar diretamente a desigualdade de acesso a crédito documentada pelo Sebrae — ainda que, em escala nacional, sigam sendo exceção e não regra.

Conclusão

O empreendedorismo negro no Brasil não é uma história simples de superação: é, ao mesmo tempo, maioria numérica entre pequenos negócios e minoria em formalização, crédito e renda. Reconhecer esse quadro completo — e não apenas a estatística mais otimista de que pessoas negras “já são maioria entre os empreendedores” — é essencial para que políticas públicas e programas privados de fomento sejam direcionados para os pontos em que a desigualdade de fato se concentra.

Referências e para saber mais

  • Sebrae / DataSebrae — dados sobre empreendedorismo negro, com base na PNAD Contínua (IBGE), 4º trimestre de 2025.
  • Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC) — dados do setor de hair care no Brasil (2023).
  • Agência de Desenvolvimento de São Paulo — programa Empreenda Afro.
  • Grupo Carrefour Brasil — edital de apoio ao empreendedorismo negro.