Milton Santos é frequentemente descrito como o maior geógrafo brasileiro e um dos mais importantes do mundo em sua área — mas, fora dos círculos acadêmicos, seu nome ainda é pouco conhecido do público brasileiro em geral. Sua trajetória atravessa exílio, reconhecimento internacional tardio e uma obra que reformulou a forma de pensar o espaço geográfico no contexto da globalização.

Origem na Bahia e formação em Direito

Milton Almeida dos Santos nasceu em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia. Formou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1948, mas nunca exerceu a advocacia — seguiu para a geografia, doutorando-se na Universidade de Strasbourg, na França, retornando ao Brasil ao final dos anos 1950.

O exílio durante a ditadura

Após o golpe militar de 1964, Milton Santos foi preso em Salvador, sob a acusação de que sua comissão de trabalho estaria “infiltrada por comunistas”. Com a intervenção do cônsul francês na cidade, conseguiu deixar o país ainda em 1964 — imaginando um afastamento de poucos meses, que na prática se estendeu por cerca de treze anos.

Durante o exílio, lecionou em universidades de várias partes do mundo: Toulouse, Bordeaux e a Sorbonne, na França; depois no Canadá; no MIT (Massachusetts Institute of Technology) e na Columbia University, nos Estados Unidos; e também na Venezuela e na Tanzânia. Essa circulação internacional forçada terminou moldando parte de sua obra, que sempre tratou o espaço geográfico em diálogo com processos econômicos e sociais globais, e não apenas nacionais.

Com a redemocratização, Santos voltou ao Brasil e foi reintegrado à UFBA em 1995 — a universidade que o havia expulsado durante a ditadura. Tornou-se professor titular da Universidade de São Paulo (USP) em 1983, recebendo o título de Professor Emérito em 1997, e chegou a ser professor visitante na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, no biênio 1997-98.

O prêmio que faltava reconhecimento no Brasil

Em 1994, Milton Santos recebeu o Prêmio Internacional Vautrin Lud, concedido durante o Festival Internacional de Geografia de Saint-Dié-des-Vosges, na França — considerado a mais alta distinção internacional da geografia, conhecido informalmente como o “Nobel da Geografia”. Ele foi o primeiro latino-americano a receber o prêmio. Consultando a lista oficial de laureados divulgada pela organização do festival, nenhum outro pesquisador da América Latina apareceu nela desde então — um dado que vale conferir diretamente na lista atualizada de premiados, já que ela é publicada anualmente.

Apesar desse reconhecimento internacional, e de ter recebido títulos de doutor honoris causa por doze universidades brasileiras e sete estrangeiras, seu nome segue mais presente na formação de geógrafos e cientistas sociais do que no debate público brasileiro em geral — um contraste que ilustra como o Brasil frequentemente demora para reconhecer, em vida e fora da academia, suas próprias referências intelectuais negras.

Contribuições centrais à geografia

Milton Santos é a principal referência da chamada geografia crítica no Brasil. Desenvolveu o conceito de espaço geográfico como “espaço banal” — o território tal como é usado por todos, e não apenas como recorte técnico ou administrativo —, analisado a partir de quatro categorias que se combinam: forma, função, estrutura e processo.

Sua crítica mais conhecida à globalização está sistematizada no livro Por uma Outra Globalização (2000), no qual denuncia o que chamou de “globalitarismo” e distingue a “globalização como fábula” — o discurso ideológico que a apresenta como processo naturalmente benéfico — da “globalização perversa”, que de fato se impõe sobre a maior parte do mundo, ao mesmo tempo em que aponta para a possibilidade de “uma outra globalização”, mais democrática.

Um nome ao lado de outras referências negras brasileiras

A trajetória de Milton Santos dialoga com a de outras intelectuais negras brasileiras discutidas neste blog, como a socióloga Lélia Gonzalez — ambos alcançaram reconhecimento acadêmico de peso internacional em campos historicamente dominados por homens brancos, muitas vezes antes de serem plenamente reconhecidos no debate público brasileiro.

Morte e legado

Milton Santos morreu em 24 de junho de 2001, em São Paulo, após enfrentar um câncer de próstata diagnosticado anos antes. Seu legado permanece vivo sobretudo na formação de geógrafos brasileiros — mas seu nome merece circular além da universidade, como parte de uma história mais ampla de intelectuais negros brasileiros cuja obra alcançou reconhecimento internacional antes de alcançar o devido reconhecimento popular em seu próprio país.

Referências e para saber mais

  • Festival International de Géographie de Saint-Dié-des-Vosges (fig.saint-die.com) — lista oficial de laureados do Prêmio Vautrin Lud desde 1991.
  • Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (fflch.usp.br) — perfil biográfico de Milton Santos.
  • Observatório do Terceiro Setor — reportagem “O brasileiro perseguido pela ditadura que ganhou o Nobel da Geografia”, sobre o exílio e a trajetória internacional de Santos.
  • Milton Santos, Por uma Outra Globalização: do pensamento único à consciência universal (Editora Record, 2000).
  • Milton Santos, A Natureza do Espaço (EDUSP).