Falar sobre desigualdade racial e falar sobre desigualdade de gênero no Brasil, separadamente, já são debates necessários. Mas quando se trata de mulheres negras, tratar racismo e machismo como problemas isolados esconde uma parte importante da realidade: os dois se somam e se multiplicam, colocando mulheres negras numa posição estrutural diferente da de homens negros e da de mulheres brancas. É esse fenômeno que o conceito de interseccionalidade busca nomear.
O que é interseccionalidade
O termo foi cunhado pela jurista americana Kimberlé Crenshaw em 1989, mas descreve algo que pensadoras negras brasileiras já vinham teorizando por outros caminhos. Lélia Gonzalez (1935-1994), socióloga, antropóloga e uma das fundadoras do feminismo negro brasileiro, desenvolveu nos anos 1980 o conceito de amefricanidade para descrever a experiência específica de ser mulher, negra e latino-americana — recusando tanto um feminismo branco que ignorava raça quanto um movimento negro que, por vezes, deixava de lado as especificidades da experiência feminina. Sueli Carneiro, fundadora em 1988 do Geledés – Instituto da Mulher Negra, é outra referência central desse pensamento no Brasil.
O que os dados mostram
Mercado de trabalho e renda. Segundo o IBGE (levantamento “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, com dados de 2023), mulheres negras recebem em média 42,5% menos que homens brancos — o grupo de maior rendimento no país. Dados da PNAD Contínua do 2º trimestre de 2024 mostram taxa de desocupação de 10,1% entre mulheres negras, mais que o dobro da taxa entre homens não negros (4,6%).
Violência e feminicídio. O 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2025, com dados de 2024) registrou 1.492 feminicídios no Brasil em 2024 — recorde desde o início da série histórica em 2011. 63,6% das vítimas eram mulheres negras, uma desproporção expressiva considerando o peso demográfico da população negra no país.
Mortalidade materna. Há disparidade racial bem documentada nesse indicador, ainda que estudos diferentes apontem magnitudes distintas: levantamentos citados pela Câmara dos Deputados, com base em dados do Ministério da Saúde, apontam mortalidade materna 77% maior entre mulheres negras do que entre brancas; um estudo mais recente do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) chega a apontar uma taxa próxima do dobro. A variação entre os números reflete diferenças de metodologia e período — mas todos convergem na mesma direção: mulheres negras morrem mais por causas relacionadas à gravidez e ao parto no Brasil.
Representatividade política e liderança. O número de deputadas federais negras eleitas passou de 13, em 2018, para 29, em 2022. Ainda assim, um estudo do IPEA em parceria com a Fundação Lemann mostra que mulheres negras ocupavam, em 2023, apenas 9% dos cargos de alto escalão do governo federal — uma alta em relação aos 6% de anos anteriores, mas ainda muito abaixo do peso da população negra no país.
Uma desigualdade que exige olhar duplo
Como já discutido no post sobre a persistência do racismo estrutural no Brasil, boa parte das desigualdades entre população negra e branca no país não decorre de diferenças individuais, mas de barreiras estruturais de acesso — à renda, à saúde, à educação, ao poder. Os dados acima mostram que, para mulheres negras, essas barreiras se somam a desigualdades de gênero que atingem todas as mulheres, mas de forma desproporcionalmente mais severa quando combinadas com o racismo.
Isso também aparece na forma como a sociedade brasileira historicamente relegou mulheres negras a determinados papéis sociais — do trabalho doméstico no pós-abolição, discutido no post sobre a resistência negra na história do Brasil, à sub-representação em posições de prestígio e poder até os dias de hoje.
Conclusão
Entender a experiência da mulher negra brasileira exige recusar respostas simples. Não é “só” racismo, nem “só” machismo — é a combinação específica dos dois, teorizada há décadas por pensadoras negras brasileiras como Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro, e hoje confirmada por dados de renda, violência, saúde materna e representatividade política. Políticas públicas que tratam gênero e raça separadamente tendem a deixar de fora justamente quem está na interseção dessas duas desigualdades.
Referências e para saber mais
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil (2023/2024) e PNAD Contínua.
- Fórum Brasileiro de Segurança Pública — 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2025).
- Câmara dos Deputados e Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) — dados sobre mortalidade materna por raça/cor.
- Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e Fundação Lemann — estudo sobre liderança de mulheres negras no serviço público federal.
- Geledés – Instituto da Mulher Negra — biografias de Sueli Carneiro e Lélia Gonzalez.
