Existe uma forma preguiçosa de contar essa história: dizer que mulheres trans não conseguem emprego formal por transfobia, ponto final. É verdade, mas incompleta — e a parte que falta é justamente a que mais interessa a este blog. Os dados mais recentes mostram que, mesmo entre a minoria de pessoas trans que consegue atravessar a porta estreita do mercado formal brasileiro, a raça continua operando como um segundo filtro: mulher trans preta ganha menos do que mulher trans branca na mesma condição de emprego formal. A barreira não é uma coisa só; são duas, sobrepostas, e a segunda não desaparece quando a primeira é vencida.

Uma porta estreita para quase todo mundo

O retrato mais preciso hoje disponível vem de uma nota técnica do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), publicada em outubro de 2025 na revista Mercado de Trabalho: Conjuntura e Análise (n. 80), assinada por Filipe Matheus Silva Cavalcanti, Felipe Vella Pateo e Alberto Luis Araújo Silva Filho. Os pesquisadores cruzaram o Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) — usando alterações de nome e gênero como critério de identificação — com a RAIS (Relação Anual de Informações Sociais) de 2023, e chegaram a 38.758 pessoas trans localizáveis no país entre 14 e 64 anos. Desse total, apenas 25% tinham vínculo formal de trabalho em 2023.

Dividindo por gênero, a diferença já aparece: entre mulheres trans, a taxa de inserção no mercado formal foi de 20,7%; entre homens trans, 31,1%. Quem já está empregado formalmente também ganha menos: o rendimento médio de pessoas trans com carteira assinada foi de R$ 2.707, 32% abaixo da média nacional de trabalhadores formais (R$ 3.987) naquele ano — e, especificamente entre mulheres trans, o rendimento fica 27% abaixo do de mulheres cisgênero na mesma condição de emprego formal.

Um retrato semelhante, com metodologia diferente, veio de um estudo publicado em 2020 na revista científica Ciência & Saúde Coletiva: numa amostra de 528 pessoas trans com algum vínculo de trabalho no estado de São Paulo, 13,9% das mulheres trans e travestis estavam no mercado formal, contra 59,4% dos homens trans — uma disparidade de gênero, dentro da própria população trans, ainda mais acentuada que a encontrada pelo Ipea cinco anos depois.

Onde a raça reaparece dentro do próprio grupo

É na mesma nota técnica do Ipea que aparece o dado menos divulgado, e o mais revelador para este blog: dentro do recorte já estreito de pessoas trans com emprego formal, o rendimento médio de pessoas trans pretas e pardas fica 27% abaixo do rendimento de pessoas cis pretas e pardas em condição equivalente — enquanto, entre pessoas trans brancas, essa distância sobe para 37% abaixo das pessoas cis brancas. Ou seja, a penalização por ser trans, medida em relação ao próprio grupo racial de referência, não poupa nenhuma mulher trans — mas o ponto de partida de uma mulher trans preta já era mais baixo antes de qualquer coisa, porque ela carrega ao mesmo tempo o hiato racial documentado para toda a população negra no Brasil e o hiato de gênero específico da experiência trans. As duas desigualdades não se cancelam nem se anulam: elas se empilham.

Esse padrão de acúmulo é o mesmo descrito, para outro recorte de trabalho precário, no post sobre trabalho doméstico e a dependência de uma única renda entre mulheres negras: a informalidade não é um acidente estatístico que atinge por igual toda a população negra — ela se concentra de forma desproporcional em quem já carrega mais de uma desvantagem estrutural ao mesmo tempo.

Quando a alternativa não é escolha, é ausência de opção

A ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) — organização que representa diretamente essa população e cujos números, por isso mesmo, merecem ser lidos como estimativa militante e não como censo oficial — estima, com base em levantamento próprio, que cerca de 90% das travestis e mulheres trans brasileiras têm em algum momento a prostituição como principal fonte de renda, enquanto apenas uma fração residual estaria inserida no mercado formal. O número é mais alto do que o encontrado pelo Ipea e pelo estudo de São Paulo — o que é esperado, já que a ANTRA acompanha de perto travestis e mulheres trans em situação de maior vulnerabilidade, enquanto o cruzamento com a RAIS só localiza quem já regularizou nome e gênero no CPF. Mesmo com metodologias diferentes, os três levantamentos convergem para o mesmo diagnóstico: para a maioria das mulheres trans no Brasil, a informalidade não é uma escolha entre alternativas equivalentes — é o que resta quando a porta formal está, na prática, fechada.

Um levantamento de 2024 da plataforma To.gather, em parceria com o Fórum de Empresas e Direitos LGBTQIA+, reforça esse quadro a partir de dentro das próprias empresas: em uma amostra de 289 companhias somando cerca de 1,5 milhão de funcionários, pessoas trans ocupavam apenas 0,38% dos postos de trabalho formais — uma fração residual mesmo em organizações que já assumiram publicamente compromissos de diversidade.

Iniciativas que tentam abrir essa porta

Nem tudo nesse cenário é ausência de resposta. A plataforma TransEmpregos, criada em 2013 pela jornalista Maite Schneider, já intermediou cerca de 10 mil contratações de pessoas trans em pouco mais de uma década, conectando candidatas diretamente a empresas dispostas a contratar. No plano institucional, o Ministério Público do Trabalho coordena desde 2024 o Projeto Nacional de Empregabilidade LGBTQIAPN+, que no biênio 2024-2025 capacitou 368 pessoas LGBTI+ e resultou em 121 contratações formais. Em São Paulo, o programa municipal Transcidadania oferece bolsa e conclusão de ensino médio para travestis e mulheres trans, tratando a baixa escolaridade — outra barreira de acesso documentada nesses estudos — como parte do problema a ser enfrentado, não como culpa individual de quem não conseguiu concluir os estudos em um ambiente escolar hostil.

Conclusão

Os números do Ipea, do estudo de São Paulo e da própria ANTRA não contam três histórias diferentes: contam a mesma história, vista de três ângulos com diferentes graus de alcance. Mulheres trans, de forma geral, enfrentam uma barreira de entrada no mercado formal que praticamente empurra a maioria delas para a informalidade ou para a prostituição como única alternativa de renda. Mas essa barreira não trata todas as mulheres trans da mesma forma: para quem é também negra, a exclusão do mercado formal se soma a uma penalização racial que persiste mesmo depois de conquistado o emprego com carteira assinada. Entender essa sobreposição — e não tratá-la como duas pautas paralelas, uma de “gênero” e outra de “raça” — é o primeiro passo para que políticas de inclusão no mundo do trabalho não continuem beneficiando, dentro da própria população trans, principalmente quem já partia de um ponto menos desigual.

É essa mesma combinação de pressões — a ameaça constante ao próprio emprego, sem rede de proteção formal por trás — que atravessa uma noite inteira na vida de Cris, protagonista do romance Acorda, Menina! É Hora de Agir, de Max Lobo: mulher negra e trans da periferia de Brasília que vê o próprio sustento colocado em risco por uma série de queixas no trabalho, e que passa a madrugada tentando reverter isso antes que o expediente seguinte comece.

Referências e para saber mais

  • Cavalcanti, Filipe Matheus Silva; Pateo, Felipe Vella; Araújo Silva Filho, Alberto Luis — “A inserção e as características das pessoas trans no assalariamento formal”, nota técnica publicada em Mercado de Trabalho: Conjuntura e Análise, n. 80, Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), outubro de 2025, com base em cruzamento CPF × RAIS 2023.
  • Ciência & Saúde Coletiva — “Trabalho e saúde na população transexual: fatores associados à inserção no mercado de trabalho no estado de São Paulo, Brasil”, v. 25, n. 5, 2020 (SciELO).
  • ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) — levantamento próprio sobre inserção de travestis e mulheres trans no mercado formal e na economia do sexo; dado tratado aqui como estimativa da própria associação, e não como levantamento oficial.
  • Plataforma To.gather e Fórum de Empresas e Direitos LGBTQIA+ — levantamento sobre representatividade trans em empresas brasileiras, 2024.
  • TransEmpregos (fundada por Maite Schneider, 2013) e Ministério Público do Trabalho (Projeto Nacional de Empregabilidade LGBTQIAPN+, 2024-2025) — iniciativas de intermediação de emprego para pessoas trans.