A cultura afro-brasileira é uma das principais influências na formação da identidade nacional, e essa presença também marcou o cinema brasileiro — muitas vezes trazendo ao público narrativas de resistência, protagonismo negro e crítica social que dificilmente chegariam às telas por outros caminhos. Neste artigo, destacamos algumas obras marcantes nessa trajetória.

Quilombo (1984)

Um exemplo marcante é o filme “Quilombo”, dirigido por Cacá Diegues.

Capa do filme Quilombo de 1984

A produção retrata a formação do Quilombo dos Palmares, comunidade de pessoas escravizadas fugidas que existiu no Brasil colonial, entre os séculos XVI e XVII, na região que hoje corresponde a Alagoas. Por meio desse filme, um período central da história da resistência negra no Brasil ganhou ampla visibilidade no cinema nacional, com temas como a luta pela liberdade e a organização coletiva em torno de Zumbi dos Palmares. O filme é hoje considerado uma das produções mais relevantes do cinema brasileiro sobre a experiência negra no país.

Orfeu Negro (1959)

Filmes como “Orfeu Negro”, dirigido por Marcel Camus, e “Cidade de Deus” (2002), dirigido por Fernando Meirelles, foram aclamados internacionalmente por sua abordagem estética e pela forma como incorporaram elementos culturais afro-brasileiros — ainda que sob perspectivas bastante diferentes entre si.

Capa do filme Orfeu Negro de 1959

“Orfeu Negro” é uma coprodução franco-ítalo-brasileira de 1959, dirigida por Marcel Camus, com roteiro adaptado por Camus e Jacques Viot a partir da peça “Orfeu da Conceição”, de Vinícius de Moraes. É uma adaptação da tragédia grega de Orfeu, ambientada no Rio de Janeiro durante o Carnaval, com trilha sonora de Tom Jobim e Luís Bonfá. Representando oficialmente a França, o filme venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1960 — um marco de reconhecimento internacional para a estética afro-brasileira no cinema da época, embora dirigido por um cineasta francês, o que também gerou críticas por retratar o Brasil e a cultura negra sob um olhar estrangeiro e, em parte, estereotipado.

Cidade de Deus (2002)

Capa do filme Cidade de Deus de 2002

Adaptado do romance homônimo de Paulo Lins, o filme conta a história da favela Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, entre as décadas de 1960 e 1980, majoritariamente através de personagens negros. Foi um sucesso de crítica e público, recebendo quatro indicações ao Oscar na cerimônia de 2004: Melhor Diretor, Melhor Fotografia, Melhor Montagem e Melhor Roteiro Adaptado. Em 2002, foi exibido fora de competição no Festival de Cannes, com recepção calorosa da crítica internacional.

Representatividade negra na frente e atrás das câmeras

Nas últimas décadas, a presença de artistas negros como protagonistas — e também como diretores e roteiristas — tem crescido no cinema nacional, ainda que de forma desigual em relação ao peso demográfico da população negra no país. Lázaro Ramos, um dos atores negros mais conhecidos do Brasil, atuou em filmes como “Madame Satã” (2002, dirigido por Karim Aïnouz) e “Ó Paí, Ó” (2007), e passou também à direção: “Medida Provisória” (2022), sobre um Brasil fictício que institui a devolução em massa da população negra à África, é seu primeiro longa-metragem de ficção como diretor.

Representatividade em escala global

Fora do circuito nacional, o sucesso mundial de Pantera Negra (2018), da Marvel, mostrou o potencial comercial de produções protagonizadas por elencos negros — um filme também associado ao afrofuturismo, movimento estético e cultural que imagina futuros onde pessoas negras são protagonistas.

Fora das telas, outro espaço de disputa histórica por representatividade e reconhecimento é o futebol brasileiro, onde jogadores negros também tiveram que conquistar, na marra, um espaço que lhes era negado.

O caminho pela frente

O cinema nacional segue encontrando na cultura afro-brasileira uma fonte importante de narrativas e representatividade, mas o caminho ainda é desigual: estudos e pesquisas de diversidade no audiovisual brasileiro, como os relatórios da Agência Nacional do Cinema (Ancine), continuam apontando a sub-representação de pessoas negras em papéis de direção, roteiro e produção, mesmo quando protagonizam as histórias contadas nas telas. Valorizar filmes que celebram a cultura afro-brasileira — e, sobretudo, apoiar diretores, roteiristas e produtores negros — é parte de construir uma indústria audiovisual mais representativa da diversidade racial do país.