Há uma estatística que costuma aparecer isolada, como curiosidade: a maioria das trabalhadoras domésticas do Brasil é negra. Ela é verdadeira, mas sozinha esconde o que mais importa. O dado que realmente define a precariedade dessa ocupação não é só quem a exerce — é o que acontece quando essa é a única renda de uma casa sem carteira assinada, sem previdência e sem rede de proteção nenhuma por trás. É nesse ponto de encontro entre informalidade e dependência de uma única fonte de sustento que a desigualdade racial no mercado de trabalho brasileiro se mostra de forma mais crua.
Quem sustenta a casa com o trabalho doméstico
Segundo boletim do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) de 30 de abril de 2024, com base na PNAD Contínua 2023 do IBGE, o Brasil tinha 6.067 mil pessoas ocupadas em serviços domésticos naquele ano. O perfil é conhecido: 92% mulheres, 66% delas negras (pretas e pardas). Mas o dado que separa esse grupo do restante da força de trabalho feminina é a intensidade da dependência: entre as mulheres negras ocupadas no país, 16% tinham o trabalho doméstico como principal fonte de emprego e renda, contra apenas 9% entre as não negras. Não é uma ocupação marginal na vida econômica dessas mulheres — para uma em cada seis mulheres negras que trabalham no Brasil, é a fonte de renda.
Essa proporção — 16% contra 9% — já indica algo que dados de renda ou de feminicídio isolados não mostram: uma diferença estrutural na forma como o mercado de trabalho absorve mulheres negras, discutida em maior profundidade no post sobre interseccionalidade entre racismo e machismo na vida da mulher negra brasileira.
A informalidade não é exceção, é a norma do setor
O mesmo boletim do DIEESE mostra que, em 2023, 77% das trabalhadoras domésticas negras trabalhavam sem carteira assinada — praticamente igual às 75% das não negras, o que indica que a informalidade nesse setor específico é alta para todas, independente de raça. A diferença racial aparece quando se compara com a situação geral do mercado: entre as trabalhadoras negras ocupadas em qualquer função, a taxa de informalidade era de 61%; entre as não negras, 58%. Ou seja, o próprio fato de estar concentrada no trabalho doméstico já empurra a taxa de informalidade de qualquer trabalhadora para cima — e mulheres negras estão desproporcionalmente concentradas ali.
O reflexo na proteção previdenciária é direto: 67% das domésticas negras não contribuíam regularmente para a previdência em 2023, contra 39% das trabalhadoras negras em geral. Sem carteira assinada e sem contribuição previdenciária, não há FGTS, não há seguro-desemprego, não há licença remunerada, não há aposentadoria garantida — e não há amortecedor nenhum caso o emprego termine de um dia para o outro, por qualquer motivo, incluindo uma queixa de empregador.
Uma pesquisa nacional mais recente, conduzida pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em parceria com o Ministério da Igualdade Racial e divulgada em março de 2025 (levantamento com 1.196 pessoas que declararam exercer trabalho doméstico e/ou de cuidados remunerado), confirma o mesmo padrão a partir de outro ângulo: 69,9% de quem exerce esse tipo de trabalho no Brasil são mulheres negras, e 52,4% das trabalhadoras domésticas negras não completaram o ensino médio, contra 42,9% das não negras — uma diferença de escolaridade que também reduz a chance de mobilidade para outra ocupação caso a atual acabe.
O rendimento fica abaixo do salário mínimo
Em 2023, o rendimento médio das trabalhadoras domésticas era de R$ 1.122 — menos da metade (45%) do rendimento médio de todas as mulheres ocupadas no país (R$ 2.510), e abaixo do próprio salário mínimo vigente naquele ano (R$ 1.320), segundo o mesmo boletim do DIEESE. Dentro desse grupo já empobrecido, a distância racial persiste: as domésticas negras recebiam, em média, R$ 1.095 — 87% do valor recebido pelas não negras (R$ 1.226), que já era baixo. A consequência aparece na taxa de pobreza: 22% das trabalhadoras domésticas negras estavam em situação de pobreza em 2023, e 8,5% em extrema pobreza — contra 13,3% e 4,4% entre as domésticas não negras, e contra 10,5% e 3,2% no conjunto de todas as mulheres ocupadas do país.
Quando essa é a única renda da casa
O ponto em que esses números deixam de ser estatística de ocupação e passam a ser estatística de sobrevivência familiar é a chefia do domicílio. O DIEESE calculou que, entre os domicílios brasileiros com presença de trabalhadoras domésticas, 57,1% tinham a própria doméstica como responsável pelo domicílio — proporção maior que a observada entre lares com qualquer mulher ocupada (51,4%). E, dentro desse grupo, o arranjo mais comum não é o de casal com filhos: é o monoparental, do tipo mãe com filhos, presente em 34% dos domicílios chefiados por uma trabalhadora doméstica.
É exatamente aí que a precariedade se revela em toda a sua extensão: nos domicílios monoparentais chefiados por uma trabalhadora doméstica, a renda per capita mensal era de apenas R$ 948 em 2023 — o equivalente a 72% do salário mínimo daquele ano. Não é uma renda baixa somada a outra renda da casa; é, com frequência, a única renda, sustentando sozinha o próprio sustento e o dos filhos, sem rede de proteção formal, num arranjo em que qualquer interrupção do emprego — uma demissão, uma doença, uma queixa infundada da família empregadora — não tem colchão nenhum atrás.
Uma precariedade que se repete em outras frentes do trabalho informal
O trabalho doméstico é o caso mais bem documentado dessa dinâmica, mas não é isolado: dados do Sebrae, com base na mesma PNAD Contínua, mostram que pessoas negras já são maioria entre pequenos empreendedores do país, mas apenas 23,6% desses negócios têm CNPJ formal — o mesmo padrão de informalidade alta discutido em detalhe no post sobre empreendedorismo negro no Brasil. Em ambos os casos, a ausência de vínculo formal não é um detalhe burocrático: é o que decide se existe ou não uma rede mínima de proteção quando a única fonte de renda da casa é ameaçada.
Conclusão
Os números não mostram uma população que não trabalha ou que não sustenta a própria casa — mostram exatamente o oposto: mulheres negras chefiando sozinhas seus domicílios, majoritariamente através de um trabalho que, estruturalmente, não oferece carteira assinada, previdência ou qualquer proteção formal. A precariedade do trabalho doméstico no Brasil não é apenas sobre remuneração baixa — é sobre o que sobra de uma família quando sua única fonte de sustento pode desaparecer de um dia para o outro, sem aviso-prévio, sem seguro-desemprego, sem segunda chance óbvia.
É essa mesma fragilidade — depender de um único emprego, sem rede de proteção, para sustentar toda a casa — que empurra Cris, protagonista do romance Acorda, Menina! É Hora de Agir, de Max Lobo, a passar uma noite inteira tentando salvar o próprio emprego diante de queixas que ameaçam ser a sua demissão. Mulher negra e trans da periferia de Brasília, Cris se torna a única responsável pelo sustento da casa depois que o pai adoece — e a urgência dessa noite só existe porque, como para milhões de mulheres negras brasileiras, não há colchão nenhum atrás daquele emprego se ele acabar.
Referências e para saber mais
- DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) — Boletim Especial “As dificuldades das trabalhadoras domésticas no mercado de trabalho e na chefia do domicílio”, 30 de abril de 2024, com base na PNAD Contínua 2023 do IBGE.
- Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Ministério da Igualdade Racial — Pesquisa Nacional sobre Trabalho Doméstico e de Cuidados Remunerados, divulgada em março de 2025 (seminário “Trabalho, Cuidado e Parentalidades”).
- Sebrae / DataSebrae — dados sobre empreendedorismo negro e formalização, com base na PNAD Contínua (IBGE), 4º trimestre de 2025.
