Há quase duas décadas o Brasil ocupa o primeiro lugar mundial em assassinatos de pessoas trans — não por um ano ruim, mas de forma sustentada, ano após ano. Quando se olha para dentro desse número, ele não distribui a violência de forma uniforme: a maioria das vítimas é formada por mulheres trans e travestis negras. Esse padrão não é acidente estatístico. Ele mostra, com uma nitidez que poucos outros dados oferecem, como racismo e transfobia se somam no Brasil — e é por isso que este post não se organiza em torno da contagem de mortes, mas em torno de uma pergunta diferente: o que sustenta a vida de quem segue vivendo apesar dessa realidade.
Um recorde que já dura quase vinte anos
Segundo o projeto Transrespect versus Transphobia Worldwide (TvT), da organização Transgender Europe (TGEU), o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo desde 2008 — pelo 18º ano consecutivo, de acordo com o levantamento divulgado em janeiro de 2026. Desde que o TvT começou a sistematizar esses dados, 4.042 assassinatos de pessoas trans foram registrados globalmente, e 1.645 deles — 40% do total mundial — ocorreram no Brasil, um país que representa menos de 3% da população do planeta.
No território nacional, quem documenta esses casos ano a ano é a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais). É importante dizer com clareza o que isso significa: a ANTRA é uma organização de defesa da própria comunidade trans, não um órgão estatal — e por isso é, tecnicamente, uma fonte interessada. Ela é, ao mesmo tempo, a referência primária mais citada academicamente sobre o tema pela razão inversa: o Estado brasileiro não tem um sistema oficial e centralizado que registre identidade de gênero em boletins de ocorrência ou em atestados de óbito, o que na prática deixa a contagem — e a memória — dessas mortes nas mãos da própria comunidade.
O Dossiê da ANTRA divulgado em janeiro de 2026, com dados de 2025, registrou 80 mortes violentas de pessoas trans no Brasil, das quais 77 (97%) eram travestis ou mulheres trans. O número caiu em relação às 122 mortes registradas em 2024 — uma queda que a própria ANTRA pede para não ser lida como sinal de melhora estrutural, já que no mesmo período as tentativas de homicídio subiram: foram 75 casos registrados em 2025, um aumento de 32% sobre o ano anterior. Menos mortes e mais tentativas, na mesma janela de tempo, descrevem uma violência que não recuou — só nem sempre terminou em óbito.
Onde raça e identidade de gênero se encontram
O dado que interessa mais de perto a este blog é o recorte racial dentro desse total. Das vítimas de 2025 cuja raça ou cor foi identificada — 57 casos —, 70% eram pessoas negras (pretas e pardas). E esse número de um único ano não é desvio: a média entre 2017, quando a ANTRA começou a sistematizar esses dossiês, e 2025 é de 77% de vítimas negras. Como já discutido no post sobre interseccionalidade entre racismo e machismo na vida da mulher negra brasileira, a combinação de dois eixos de desigualdade — aqui, raça e identidade de gênero — não soma dois riscos parecidos: multiplica um risco específico, que não atinge do mesmo jeito uma mulher trans branca ou um homem negro cisgênero.
Esse cruzamento é também econômico, e por isso concreto. Grande parte das mulheres trans no Brasil enfrenta expulsão do lar na adolescência e um mercado de trabalho formal que resiste a contratá-las — o que empurra muitas para o trabalho informal ou para a prostituição como única fonte de renda disponível, exatamente o tipo de arranjo sem carteira assinada, sem previdência e sem colchão de proteção que também aparece, para mulheres negras em geral, no post sobre trabalho doméstico e dependência de uma única renda no Brasil. A vulnerabilidade à violência letal, nesse sentido, não começa no momento do crime: começa nas portas que se fecham anos antes.
Um reconhecimento jurídico que ainda está sendo construído
Se a violência é antiga, o reconhecimento legal dela é recente — e ainda incompleto. Em 2023, a 6ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que a Lei Maria da Penha se aplica a mulheres trans independentemente de alteração do registro civil de nome e gênero, entendendo que o critério da lei é o gênero da vítima, não o sexo biológico ou o que consta em documento. No mesmo ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) formou majoria para enquadrar a transfobia, por analogia, como crime de racismo — reconhecendo uma omissão legislativa que, até hoje, não foi corrigida por lei específica do Congresso Nacional.
Essas decisões não mudam os números de um ano para o outro, mas mudam o que uma morte de mulher trans significa perante a lei: deixam de ser tratadas como um homicídio comum e passam a poder ser reconhecidas, nos tribunais, dentro da mesma lógica de proteção de gênero que existe para qualquer mulher. É um avanço real, e também a prova de que ele chegou tarde — depois de décadas em que a própria comunidade trans teve que documentar suas mortes porque nenhuma instituição pública o fazia.
O que sustenta a vida apesar da violência
Nenhum desses números conta a parte da história que mais importa: a de quem constrói, todos os dias, uma vida que a estatística não prevê. Espaços como a Casa Nem, criada no Rio de Janeiro em 2015 pela ativista trans Indianarae Siqueira, e a Casa Florescer, serviço de acolhimento mantido pela prefeitura de São Paulo para travestis e mulheres trans, existem precisamente porque a rede de proteção que deveria vir do Estado ou da família de origem falha com frequência — e porque a comunidade trans, historicamente, aprendeu a construir essa rede para si mesma. Isso é resistência no sentido mais concreto da palavra: não a ausência de sofrimento, mas a organização coletiva que segue sustentando vidas apesar dele.
É esse mesmo impulso — seguir de pé, e agir, depois de ter sido ferida por quem deveria protegê-la — que atravessa Cris, protagonista do romance Acorda, Menina! É Hora de Agir, de Max Lobo: mulher negra e trans da periferia de Brasília que, numa única noite decisiva, encara quem a feriu sem se deixar reduzir à posição de vítima. A ficção, aqui, não inventa uma saída fácil onde a realidade não tem uma; ela apenas insiste no mesmo ponto que os dados também mostram, quando lidos com cuidado: por trás de cada número há uma pessoa inteira, e a resposta mais comum à violência, nesse país que mais mata mulheres trans no mundo, não é a rendição — é a permanência.
Referências e para saber mais
- Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) — Dossiê Assassinatos e Violências contra Travestis e Transexuais Brasileiras em 2025, divulgado em janeiro de 2026.
- Transgender Europe (TGEU) / Transrespect versus Transphobia Worldwide (TvT) — dados globais de assassinatos de pessoas trans, divulgados em janeiro de 2026 (Trans Day of Remembrance / atualização anual).
- Superior Tribunal de Justiça (STJ), 6ª Turma — decisão de 2023 sobre aplicação da Lei Maria da Penha a mulheres trans.
- Supremo Tribunal Federal (STF) — decisão de agosto de 2023 sobre enquadramento da transfobia como crime de racismo por omissão legislativa.
- Fiocruz (Museu da Vida) — “Rebecca de todas as cores: Casa Nem, casa viva” — confirma fundação da Casa Nem em 2015, no Rio de Janeiro, pela ativista trans Indianarae Siqueira.
- Prefeitura de São Paulo (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social) — “Centro de Acolhida Florescer atende travestis e mulheres trans em situação de vulnerabilidade” — descreve o serviço como o primeiro e maior abrigo público para travestis e mulheres trans do Brasil.
